Enéas Athanázio e sua obra de resgate histórico

Enéas Athanázio e sua obra de resgate histórico

POR EDUARDO WAACK

Conheci Enéas Athanázio em meados dos anos 1980 através de nosso amigo comum, o editor Benedicto Luz e Silva, criador da Editora do Escritor em São Paulo. Tempos depois convidei-o para ingressar no grupo de articulistas do jornal O Boêmio, em 1992. Enéas aceitou de imediato. Em 1996, com a publicação da antologia “O Melhor d’O Boêmio” ele veio prestigiar o lançamento na Casa da Cultura “Armando Bambozzi”, em Matão. Juntos passamos dois dias agradáveis, ao lado de sua inseparável companheira Jandira e de outros escritores e admiradores. Desde então nossa amizade fortalece-se e frutifica, ele que é um dos maiores conhecedores da obra de Monteiro Lobato e que em seus livros retrata o sul do Brasil, sua gente, costumes e história, num primoroso trabalho de resgate histórico e regionalista.

Apresentação. Fale-nos um pouco sobre você.

Enéas — Sou catarinense dos Campos Gerais. Nasci em 28 de março de 1935, filho de José e Irma. Passei a infância na cidade natal absorvendo os costumes campeiros. Depois fui estudar fora, em Curitiba e Florianópolis. Bacharelado em Direito pela UFSC, retornei à minha cidade, Campos Novos, onde exerci intensa atividade profissional. Nesse período lecionei em colégios, fui vereador (1962-1966) e candidato a deputado pela oposição. Muito escrevi para os jornais da região e para o rádio. Em 1968, o ano fatídico do AI 5, prestei concurso para o Ministério Público. Aprovado, comecei a pular de comarca em comarca, até me aposentar como Promotor de Justiça de entrância especial na cidade de Blumenau. Em 1973 publiquei meu primeiro livro, coletânea de contos campeiros, pela Editora do Escritor (SP) — “O Peão Negro”. Desde então não parei mais de escrever e publicar, tendo hoje 55 livros e mais dois na editora. Além disso, publiquei vários opúsculos e incontáveis trabalhos para coletâneas, revistas, jornais e sites. Fui presidente do Conselho de Cultura de Blumenau, Secretário Adjunto da Justiça por três anos, vice-presidente da OAB de Blumenau e lecionei nas Universidades do Contestado (UnC) e de Blumenau (FURB). Viajei muito pelo país e conheço o Brasil como poucos. Uma vez aposentado, fixei-me em Balneário Camboriú, onde vivo à beira da praia, sempre escrevendo para as colunas que mantenho. A crítica literária me classificou como regionalista dos Campos Gerais.

Como a literatura surgiu em sua vida?

Enéas — Creio que foi algo espontâneo. Desde que me lembro, vejo-me com um livro na mão. No internato li quase toda a biblioteca. E sempre fui tomado pelo ímpeto deambulatório: viajar, excursionar, acampar, andar. Também fui aficionado do Rio Iguaçu, nele nadando, mergulhando, remando e acampando nas suas margens. Retornando das andanças, vinha o ímpeto escrevinhatório — encher as páginas de meus cadernos com os relatos das aventuras.

Quais as suas grandes influências e pessoas que admira?

Enéas — Admirei muito alguns professores da Faculdade, homens de grande cultura e erudição, em especial Othon D’Eça, uma figura admirável. Também admirei muito um advogado da minha região chamado Brasílio Celestino de Oliveira, tanto pelo saber como pela coragem e destemor no exercício da profissão em tempos de ditadura. No campo literário, Monteiro Lobato, Godofredo Rangel, Lima Barreto, Gilberto Amado, entre os nacionais, e Ernest Hemingway, Jack London, George Orwell, Pablo Neruda e alguns outros são os meus monstros sagrados. Aqui em Santa Catarina, admiro Crispim Mira, escritor e jornalista, assassinado na redação de seu jornal, e cuja biografia escrevi. Tenho maior admiração por escritores que também são ou foram homens de ação.

Quantos livros você lançou e que estilo abrangem?

Enéas — Estou com 55 livros publicados e mais dois na editora que espero sejam lançados em breve. Eles contêm novelas, contos, crônicas, narrativas de viagens, crítica literária, biografia e dois sobre temas jurídicos.

Sua opinião sobre a atual cena cultural brasileira.

Enéas — Como diria Camões, a cena cultural brasileira é de apagada e vil tristeza. Pouca gente ainda estuda, lê e se interessa por literatura. A linguagem usada na televisão é de uma pobreza lamentável e muito tenho escrito sobre isso. Mas, como incorrigível otimista, creio que isso há de melhorar. Editores e escritores estão resistindo e resistir é indispensável, mesmo que sejamos os últimos abencerragens. Faleceu há poucos dias Fernando Py, escritor formidável, tradutor de Proust e Balzac, colunista de grandes jornais. E não vi uma só nota a respeito.

Um momento de sua existência que ficou na memória.

Enéas — Como andarilho, poderia lembrar muitos, mas fixo-me em um deles. Eu me encontrava nos confins do Piauí, no auge de uma seca. Um garoto de seus cinco anos aproximou-se e puxou prosa comigo. A certa altura ele perguntou: Tio, como é a chuva? Meio espantado, procurei explicar que eram gotas de água que caíam do céu e molhavam tudo. Ele escutou, depois olhou para aquele céu sem o menor indício de nuvem, com o sol dardejando. Olhou para mim, como que duvidando de que de lá pudesse vir água. E ainda existe muita gente que agasalha preconceitos contra os irmãos nordestinos.

Fale-nos sobre seu processo de criação.

Enéas — Meu processo de criação é todo mental. A ideia surge, baila na cabeça e desaparece. Quando é boa, ela volta e vem com novos ingredientes, sinal de que o subconsciente continuou a trabalhar. Então eu me fixo nela e a história vai se formando até ficar pronta. Aí é sentar e escrever. Mas tenho que ter paciência e esperar o nascimento a termo; se forçar não vem nada que preste. No caso do ensaio e da crítica tomo notas muito sumárias. Quando comento um livro uso os sinais feitos durante a leitura. Às vezes um conto fica tempo na cabeça porque ando preocupado com outras coisas. É uma sensação desagradável que só cessa quando o descarrego.

O que é literatura para você?  Qual estilo lhe atrai?

Enéas — Numa definição acadêmica, literatura é a escrita com arte. Mas para mim é muito mais porque tem enriquecido minha vida. Escrever como eu quero e não apenas alinhar palavras é um desafio. E criar, dar vida a personagens e movimentar lugares fictícios é uma experiência maravilhosa. Já disse alguém que o ficcionista tem a pretensão de se equiparar a Deus e por isso a obra humana, por melhor que seja, nunca é perfeita.

Deixe um conselho a quem está começando a escrever.

Enéas — Bem diz o povo que se conselho fosse coisa boa ninguém daria. Anoto apenas algumas experiências que a vida me ensinou. Primeira: escrever sempre, todo dia, pelo menos um pouco. O exercício constante torna a escrita cada vez menos difícil. Segunda: prestar atenção à vida, observar as pessoas, os lugares, os fatos. Como dizia Gilberto Amado, o avoado, o distraído pode ser tudo, exceto ficcionista.

Quais seus planos para o futuro?

Enéas — Durante longo tempo sonhei em escrever o livro definitivo sobre a Guerra do Contestado. Muito tem sido escrito sobre ela mas o assunto está se tornando uma balbúrdia. Existem muitas divergências, confusões, equívocos. Isso, porém, exigiria um ror de leituras, pesquisa em livros, jornais, revistas e papéis velhos. Como já sou entrado em anos, em provecta idade, como diziam os autores antigos, cheguei à conclusão de que não teria nem tempo e nem energia para um trabalho dessa envergadura. Contento-me em manter minhas colunas e publicar mais alguns livros.

Como as pessoas podem contatá-lo e apoiar ou adquirir seu trabalho?

           Enéas — Vindo por aqui, é só chegar, as portas estão abertas e há sempre o cafezinho da Jandira em que ela é mestra. Também podem usar o meu e-mail que terei prazer em responder: e.atha@terra.com.br

Alguns livros publicados: “Três Dimensões de Lobato” (ensaios, 1975); “Godofredo Rangel” (biografia, 1977); “Tapete Verde” (contos, 1983); “Erva-Mãe” (contos, 1986); “A Cruz no Campo” (contos, 1989); “O Perto e o Longe” (ensaios, 1991); “Adeus, Rangel” (ensaios, 1994); “Vida Confinada” (autoficção, 1997); “As Antecipações de Lobato e outros escritos” (ensaios, 2001); “Direito Internacional Público” (ensaios, 2006); “O Pó da Estrada” (crônicas, 2008); “O Campo no Coração” (contos, 2012); “O Contestado” (história, 2018).

“A rica experiência de estudo de campo do amigo Enéas Athanázio tem se mostrado como uma arte de pesquisar. Em seus livros e textos que ele descreve no seu olhar etnográfico, podemos afirmar que Enéas faz um resgate regional, resgatando a história e cultura dos povos catarinenses. Um belo trabalho que o autor com sua sensibilidade poética e talento literário faz com que seus escritos sejam reconhecidos. Nós, leitores de seus livros só temos a agradecê-lo pela pureza de seus textos que a nós transmite.” — Adão Wons, escritor e jornalista, editor do Cotiporã Cultural / Cotiporã (RS)

Legendas das fotografias:

2) Visitando a Rua Godofredo Rangel, em Blumenau (SC), de quem é o único biógrafo

3) Recebendo a Medalha da Ordem do Mérito Judiciário outorgada pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina

5) No lançamento da antologia “O Melhor d’O Boêmio” (1996) em Matão, ao lado de Valéria Chiozzini, Eduardo Waack, Eliana Saraiva, Rogério Bordignon, Aristides Theodoro e Jandira.

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