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VALDI AFONJAH, GUERREIRO DA LUZ

Por Eduardo Waack

Conheci Valdi Afonjah em 1987, quando ele e o fotógrafo Daniel Aamot foram ao Cabo de Santo Agostinho (PE) preparar as fotos para a capa de seu primeiro disco, “Negra Magia”. Nossa casa, na Vila de Nazaré, serviu de base para os registros obtidos nas praias de Calhetas e Gaibu, e no Vale da Lua. Dois dias de intensa convivência e magia, em que fomos brindados com a música daquele então principiante compositor. Tornamo-nos amigos, e Valdi musicou três poemas de minha autoria, entre eles o clássico “A Lua e A Favela”. Pessoa humilde, sensível e solidária, apresentamos nesta matéria um breve relato da carreira artística deste que é um ícone da cultura popular nordestina.

“Não ganhe o mundo em troca de perder sua alma; sabedoria é melhor que prata e ouro.” — Bob Marley

Apresentação. Fale-nos um pouco sobre você.

Valdi — Sou Valdi Afonjah, antes de tudo um ativista pela luz, pela paz, pelo amor, mas também músico, compositor e cantor desde os doze anos vivendo com a arte, com a música independente no Brasil e pelo mundo também. Sou um homem preto, africano brasileiro, nordestino filho de Xangô.

Como a música surgiu em sua vida?

Valdi — A música faz parte da minha vida desde a minha infância; meu pai era cantor de serestas, tinha um toca-discos ABC e uma discoteca muito variada. Eu ouvia de tudo, comecei a estudar música sozinho, por correspondência e aos doze anos cantava com um grupo que formamos na escola, além dos Grêmios (festas realizadas nas escolas) e Assustados, tocávamos também nos Centros Sociais das periferias do Recife, como Mustardinha e Afogados, e daí fui para os festivais de música no final dos anos 1970.

Quais suas grandes influências e pessoas que admira?

Valdi — As minhas primeiras grandes influencias foram minha mãe, meu pai e seus discos da música brasileira dos anos 1950. Minhas influências musicais vão de Luiz Gonzaga, Jorge Mautner, Luiz Melodia, Milton Nascimento, Gilberto Gil (o primeiro show de reggae que vi ainda anos 1970 foi Gil e Jimmy Cliff), Naná Vasconcelos e Caetano até Mestre Zé Duda, Cátia de França, Elza Soares, Gal Costa, Marina Lima, Bob Marley, Clementina de Jesus, Lia de Itamaracá, Jackson do Pandeiro, Peter Tosh, Steel Pulse, Police, Fela Kuti e a música africana como um todo. Tenho muitas referências de pessoas que convivi e convivo como o poeta Erikson Luna, Rubão Sabino (baixista), Zumbi Bahia (capoeira), as crianças, enfim a natureza e tudo que me cerca. Tento vibrar com a energia cósmica e transformar a música, minha ferramenta de trabalho, em uma experiência positiva sempre.

Quantos discos solo você lançou, e que estilos abrangem?

Valdi — Eu tenho três discos lançados ao longo da minha carreira. “Negra Magia” (1988) afro-pop. “Afonjah” (1997) é um disco de reggae com pitadas psicodélicas. Conta com a participação especial do Maestro Spok e dos meninos do Centro Cultural Daruê Malungo, grupo liderado pelo mestre Meia Noite. E “Cambinda Dub” de 2003, uma experiência que mixa a música tradicional e contemporânea. Neste trabalho falo de João Cândido, o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata, e conseguimos chamar a atenção da sociedade ao relembrar este fato histórico. Além destes tenho vários singles lançados nos últimos anos e estou preparando para esse ano de 2019 “Baobá Nossa Memória” que fala sobre ancestralidade, da nossa herança afro indígena e das minhas origens, é um disco místico e autobiográfico.

Quais seus principais parceiros musicais, e músicos com quem tocou e gravou?

Valdi — Tenho muitos parceiros musicais, mas atualmente os mais frequentes são Lepê Correia, Jorge Mautner e o Maracatu Estrela de Ouro de Aliança. Em 1990 fui para França, e, a partir daí começa minha trajetória musical pelo mundo. Fiz turnês pelo território europeu e africano, quando conheci Aston “Familyman” Barret, baixista do The Wailers, o que resultou em uma temporada na Jamaica, incluindo gravações e quatro meses de trabalho na ilha. Já toquei com muita gente: Coco de Umbigada, Elza Soares, Emilio Santiago, Ívano Nascimento e Luiz Melodia, entre outros, e tenho um duo com a cantora Monique Morena aqui em Recife, trabalho musical que já estamos realizando há cinco anos, tocando toda semana no Bistrô em Boa Viagem musica brasileira e mundial. Estar tocando para mim é vital.

Sua opinião sobre o panorama cultural e musical em Pernambuco.

Valdi — Pernambuco é terra fértil para a Arte principalmente nas periferias, na Mata Norte, Agreste e Sertão, onde a vida é mais desafiadora e desperta esse sentimento, essa necessidade de se expressar. Eu vejo muita coisa boa acontecendo e mesmo sob o olhar incrédulo e opressor dos donos do poder a arte continua pulsando e se alastrando pelas veias da cidade, pois a arte está em nosso DNA, é luz para nossa caminhada.

Um momento que ficou na memória.

Valdi — O nascimento das minhas filhas foi um momento importante e também a primeira vez que subi no palco aos doze anos de idade quando fui tocar no Centro Social Urbano de Rio Doce, em Olinda. Meu primeiro trabalho como crooner.

Como as pessoas podem contatá-lo e apoiar ou adquirir o trabalho desenvolvido por você?

Valdi — Meu contato é pelo e-mail afonjah@gmail.com, nos telefones (81) 99840-1724 ou (81) 99828-0111 — Mamahue Produções Culturais & Afins. Também estou no Facebook.

Quais seus planos para o futuro?

Valdi — Após passar quatro anos atuando como produtor e músico no projeto Maracatu Atômico Kaosnavial, junto com Jorge Mautner, Nelson Jacobina, o Coco Popular e o Maracatu Estrela de Ouro de Aliança (PE), projeto que se desdobrou em CD e documentário, retomei minha carreira solo. Para o futuro próximo é fazer o show dos trinta anos do meu primeiro disco “Negra Magia”, além de terminar e lançar o “Baobá Minha Memória”. Meus planos estão sempre no presente, pois o futuro a Jah pertence. Obrigado sempre pela oportunidade, Luz e Paz — Rastafar I.

 – “João Cândido”, por Valdi Afonjah, finalista VMB 2002 (MTV). Prêmio de melhor videoclipe nacional no Festival Guarnicê de Cinema em São Luís do Maranhão, 2003.

 – “Caxinguelê”, 2007. Parceria de Afonjah com o poeta Lepê Correia.

 – Em parceria com Jorge Mautner, “Agoye”, 2016

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