Revista de Los Jaivas

Nervuras: poesia em carne viva de Ilma Fontes

Nervuras: poesia em carne viva de Ilma Fontes

POR EDUARDO WAACK

Ilma Fontes é figura legendária da literatura brasileira, da nordestinidade e do jornalismo alternativo. Mulher tão forte quanto bela, partiu corações e fez muitos intelectuais reverem opiniões, embalados pela clareza de sua presença iluminada e rara. Não é figura fácil, defende suas posturas com a mesma firmeza com que acolhe amigos oriundos dos quatro cantos do planeta. Tenho o enorme prazer de conhecê-la há 30 anos e ser seu fã de carteirinha. Era um tempo em que as pessoas se escreviam longas cartas, que o correio postal entregava e eram aguardadas com ansiedade.

Ilma vai até as últimas consequências para honrar seus compromissos e sua posição. Lê-la é sentir-se vivo e atuante, é mergulhar num oceano de sentimentos, memórias, audácia. Poeta exemplar, deixa Sergipe em evidência no atlas nacional. Aonde ela vai, vamos todos nós, pois o que escreve é literatura da melhor qualidade. Ilma é resistência ao ordinário, é cultura popular independente e evolucionária. O destino nos uniu. Como disse-me certa vez na USP o poeta concretista Augusto de Campos, referindo-se a Haroldo, somos irmãos siamesmos. Ilma é referência obrigatória, é tendência, vanguarda e história. Ela nos guia como um pastor conduz suas ovelhas. 

E agora oferta um apanhado de sua produção poética, tecida desde os anos 1960. “Nervuras, Poesia em Carne Viva” é um painel abrangente das várias escolas, posturas e movimentos que ecoarão pelas próximas décadas. Neste esperado livro, dedicado à professora Ana Lúcia Menezes, tudo é cru, forte, ousado & intenso. A começar pela capa, assinada por Cícero Guimarães Neto. Simples e direta. Ao longo de 92 páginas, encontramos aquilo que sabíamos encontraríamos num livro assinado por Ilma. O melhor da poesia sergipana, brasileira, universal. Alguns poemas já haviam sido publicados em primeira mão pelo jornal O Boêmio e n’O Capital e outros constaram de antologias diversas.

Guerreira, decidida, visceral, imensa, se oferece escancarada num gentil buquê multicolorido. Contraditória e verdadeira, secular e espiritual, suave e arrebatadora: yin, yang & rang. Enfrentando todos os medos, sem nada a temer. É como afirma num trecho: “heroico e mendigo rei que a todos seduz / o amor faz coisas que o tempo não dilui”. Um dia sei que não estaremos mais aqui. Porém fizemos a nossa parte, estamos fazendo, acertando e errando, corrigindo. Sua obra permanecerá, sem diluições. Ilma é a serena lua cheia que cruza os céus da poesia, e ilumina os apaixonados na longa noite latino-americana. Ilma Fontes sou eu, eu sou Ilma Fontes.

Nervuras, o Lançamento — 12 de abril é o aniversário de Ilma Fontes, mas quem ganhou o presente fomos nós, seus leitores. À partir das 17h00, o Centro de Cultura e Arte da Funcaju, localizado na Praça General Valadão, em Aracaju (SE), tornou-se centro de uma romaria de amigos, admiradores, intelectuais e artistas. Ali acontecia o esperado lançamento de seu primeiro livro de poemas. Após os autógrafos, houve a inusitada caminhada “Os Penitentes das Artes em Sergipe”, que ganhou as ruas, valorizando e homenageando 77 personalidades sergipanas que contribuíram para o fortalecimento do pensamento e da cultura local, entre eles Araripe Coutinho, Iara Vieira, Tereza Prado, Mário Jorge, Clarêncio Fontes, Giselda Moraes, Fernando Chaves e Maria Cristina Gama. Nestes tempos de memória curta, modismos passageiros e distração geral, relembrar é viver, dar vida novamente!

Três Vezes Ilma

“Quando nos encontramos, Ilma e eu, nosso forte não foi nunca tirar fotos. Somos duas amigas que se encontram. Quando estamos juntas, tomamos vinho, abrimos a caixa das recordações. Na casa dela, a caixa dela, que na verdade é um grande baú. Moca é uma criatura vivida e seu significado é muito vasto. Médica legista e psiquiatra, jornalista, dedo verde para jardinar, tocava o jornal O Capital com galhardia e por ele muito sorriu e chorou. Ativista cultural, sempre valorizou a arte em todas as suas manifestações. Vi seus amigos bailarinos, pintores, escultores, poetas, músicos, marchands de arte. Moca é um catálogo, um livro de memórias, uma biografia, um romance. Sua verve, associada com sua voz cálida e tranquila, desperta mil sentimentos, das lágrimas às gargalhadas. Moca é um céu aberto. Amo aquela mulher.” — Ane Walshpoeta e bióloga / Cambuquira (MG).

“Ela foi chegando de mansinho e foi ocupando meu coração e minha emoção. Ler o editorial do jornal O Capital se tornou uma esperança mensal de palavras fortalecedoras e inspiração. Inspirar suas mensagens e sentir-se plena em seu tempo e espaço. Mulher inteligente, você é força, coragem e garra!” — Valéria Chiozziniprofessora / Matão (SP).

“O que posso escrever em poucas linhas sobre essa mulher múltipla, genial e guerreira sem cair num denominador comum e repetir todos os elogios que ela merece? Tão pequena e frágil no corpo, tão forte, grande e esplêndida de alma! Ilma é daquelas pessoas que queremos sua amizade eternamente, pessoa verdadeira e do bem que não passa a mão na cabeça de ninguém. Sempre de mão estendida a quem precisar. É a grande mãe da arte sergipana. A ela sou sempre grata, a ela todo meu carinho. Ilma Fontes é aplausos de pé!” — Márcia Guimarãesartista-plástica / Aracaju (SE).