“Os Povos Nativos”: um chamado para a vida

“Os Povos Nativos”: um chamado para a vida

Fuente: https://jornaloboemio.wordpress.com/2022/12/14/os-povos-nativos-um-chamado-para-a-vida/

Eduardo Waack

Por Rogério Salgado *

Chamamos de opúsculo, livros com menos de 50 páginas. Acontece que determinados opúsculos têm muito mais a dizer do que muitas obras com páginas e páginas de algo que apenas se tem de palavras comerciais, vendáveis, sem um conteúdo que seja de plena importância cultural para quem as lê. Assim vejo “Os Povos Nativos” (Edição dos Autores) de Nimuendaju Oliveira, Eduardo Waack e Ipojucã Vilas Boas. A primeira ilustrou de maneira belíssima este importante livro para a nossa compreensão da história; o segundo, um dos nossos mais importantes poetas contemporâneos, com uma trajetória literária que merece respeito e o terceiro autor do design gráfico, que dispensa comentários.

“Os Povos Nativos” é, antes de tudo, um canto de amor à vida. Sim, a vida de quem realmente são os verdadeiros donos deste país, desde antes de Pedro Álvares Cabral e sua comitiva terem invadido essas terras. De lá aos dias de hoje, seres humanos que aqui moravam, foram escravizados e chacinados e com o descaso ao qual a Amazônia hoje está relegada. Exemplo disso é, por exemplo, os povos Waimiri-Atroari que foram chacinados homens, mulheres, crianças, jovens e idosos, para construção da BR-174, na década de 1970, em plena ditadura militar, mas que poucos sabem dessa história.

Nas palavras do poeta, aqui neste “livro”: “(…) Chamam-nos indígenas, mas nos consideramos apenas seres humanos. Irmãos do trovão, da lua, das pedras e das árvores centenárias. Sementes de frutos bons, que saciam a fome do peregrino. Soubemos acolher, e fomos muitas vezes traídos. Éramos altivos, nos escravizaram. Desesperados fugimos, mas não para sempre. Hoje estamos aqui, e se sobrevivemos é porque temos experiências a partilhar. Uma força interior caudalosa e vital como o Amazonas. (…)”

Numa linguagem simples e entendível ao leitor mais humilde, “Os Povos Nativos” tem em suas ilustrações e design gráfico justamente o enriquecimento da obra, na qual as três funções se completam nas páginas deste livro.

Nimuendaju Antonia Pinotti de Oliveira é professora e artista visual, 65 anos. Conselheira para assuntos indígenas do Conselho de Cultura da Prefeitura Municipal de Matão/SP (2021-2024). Eduardo Waack é poeta, escritor e jornalista, 58 anos. Editor do jornal O Boêmio (cultura popular independente e evolucionária), autor, entre outros, dos livros de poemas “Canções do Front” (1986), “Daquilo que se pode dizer” (2017) e “O Rei e Eu” (2021). Ipojucã Vilas Boas é design gráfico e músico. Formado em Comunicação e Multimeios pela PUC/SP.

“Os Povos Nativos” encerra com um poema expresso em lirismo, no qual nos diz: “pelo caminho da trilha / indiozinho / pela finita trilha / animalzinho / o rio sem peixes / floresta morta / pelos filhos da trilha / amar / (gor da) / derrota”.

“Os Povos Nativos” é um grito de alerta aos insensíveis que buscam na materialidade, algo além da natureza, mas que pode levar a um trágico futuro nos dias que virão e foi publicado justamente neste ano em que se comemora (poucos lembraram disso) os 61 anos da criação do Parque Indígena do Xingu, idealizado pelos irmãos Villas Boas e pelo antropólogo Darcy Ribeiro. O livro vem com músicas de Marluí Miranda nos QRCodes, com adaptação de cantigas tradicionais, sendo elas: “Tchari Tchari” dos índios Jaboti de Rondônia; “Araruna” dos índios Parakanã do Pará e “Kwara Kango” dos índios Kayapó do Pará, tendo como músicos: Décio de Souza Ramos Filho, Paulo Sérgio dos Santos, Artur Andrés Ribeiro, Marluí Miranda, Rodolfo Stroeter e Bugge Wesseltoft, com arranjos do Grupo Uakti e Marluí Miranda, e participação espacial do Grupo Beijo. 

Rogério Salgado é poeta, com 47 anos de carreira e é autor de, entre outros, “Naqueles Tempos da Arte Quintal”, “Volúvel Fado” e “Agnus”.