Escritos, disco de Cláudia Ferrari

Escritos, disco de Cláudia Ferrari

POR EDUARDO WAACK

Sua música é uma ilha de delicadeza em meio ao caos cotidiano. É límpida nascente que brota das profundezas da alma. Sacia, acalma, instiga. E brotando suave se avoluma nota a nota, solitária e múltipla, tornando-se ribeirão, torrente, manancial. É repleta de vida, matéria fértil, possibilidades. Cláudia Ferrari é uma compositora que está além de seu lugar e seu tempo. Transita pelo que há de melhor na música popular brasileira, e suas referências atravessam as décadas, dos anos 1960 até este instante em que nos brinda com “Escritos”, disco recém-lançado cuja envergadura assombra o ouvinte desavisado das FMs contemporâneas, acostumado com ladainhas, lugares comuns e baixaria. As músicas de Cláudia têm início, meio e fim. São elaboradas para, a partir da unidade, formar um valioso painel onde o sentimento, a técnica, o entusiasmo e a entrega convergem e se firmam. Degustadas como um bom vinho, apreciadas como joia rara, vestidas como uma calça jeans que já tomou os contornos do corpo. É necessário paixão para apreciar “Escritos”. Silêncio, mesmo que em pleno trânsito acelerado. Pois uma a uma canções são apresentadas e nelas embarcamos, e nosso barquinho faz-se pequeno para tanta generosidade. Na corrente das águas que fluem inexoráveis Cláudia nos conduz com firmeza, voz forte, acompanhada de músicos cientes de que cada momento é único, e o mínimo é o máximo.

Logo na primeira faixa ela deixa claro a que veio, “nessa total mania de querer eternizar o que é finito”. Última Canção possui melodia delicada plena de versos desesperados. O piano permeia e conduz, lembrando uma quase milonga, que cresce e se avoluma com o auxílio luxuoso da sanfona. A seguir um blues é apresentado pelo choro da guitarra, acompanhada de uma bateria vigorosa. Cláudia se abre a cada música, escancara: “vou me aventurar e ler as tuas páginas”. Outro Filme, plena em referências, tem um toque de Beatles, quarteto de cordas. O piano pontua. Uma marchinha compassada joga tudo para o alto: “a alma também pode ser vadia, meu coração um eterno carnaval”. O violão bossa nova é a base do samba dissonante que vem a seguir. Carioca pleno. Batidinha esperta, caixa de fósforos: “é tanto estandarte cravado no peito”… Balaio seria um baião? Bela melodia com referências nordestinas. De repente um repente. Instrumental elaborado — alusões jazzísticas. Concordamos com a autora, “que o amor sempre invada o meu peito e a poesia transforme a nossa dor”. A sexta faixa, uma toada, abre com o violão e é plena em referências aos anos 1970. Voz suave, encaixe perfeito. Piano e violino. Vocalize. “Troco de roupa, troco de casa, troco de mundo e você lá, em mim”, despojada e lírica. Em Oferendas Cláudia vai à beira do mar saudar seus orixás. Influências afro-brasileiras, percussão vigorosa. Este delicioso afoxé é uma profissão de fé. Tambor é embalada com a força dos metais que fazem a riqueza da MPB, lembrando Rio de Janeiro e Bahia, sua luz, descontração e amizade. Balanço simpático. Swing, coral, oração: “¿Imagina um quilombo sem Zumbi?”. A nona faixa traz o peculiar piano blueseiro. Levada rude. Dentro do compasso Cláudia brinca, previsível-imprevisível. “Meu amor, aonde foi parar? Pelo avesso quem é verso? Quem ousa ser Deus na hora do adeus?” A apoteose vem ao final, em Margens, canção que se inicia como blues guarnecido por um naipe de metais e aos poucos se transforma em cantochão, desabafo. Versos irados são desfiados até a melodia verter num samba minimalista. E nos surpreendemos, pois “o poeta é a puta ocupando as esquinas, o poeta é a fama, o lado sacana, o bobo da corte”.

Nas dez faixas que compõe “Escritos” Cláudia relembra e homenageia influências em referências e citações. Segue adiante, com honestidade, a estrada aberta pelos grandes mestres da música, da poesia, da fé e do comportamento. Inclui e atualiza. Sua voz é rouca, suave, firme, áspera, clara, límpida e fluente. Letras e melodias são de sua autoria. Faz-se acompanhar de músicos da melhor qualidade, que embarcaram neste projeto com alma e coração, em intervenções econômicas e pontuais, compondo a arquitetura sonora com virtuose: Aglaia Costa (violino, rabeca, coro), Felipe Maia (piano, violão, midi, sanfona, coro), Jerimum de Olinda (pandeiro, cuíca, carrilhão, atabaque, alfaia, caixa de fósforos), Marcos Allouchard (violão), Marcos Varaze (violão), Milton Cosmus (coro), Riva Le Boss (guitarra), Rozilda Vasconcelos (violoncelo), Sandro Araras (agogô, ganzá, conga, tamborim, guinzo, surdo, zabumba) e Wagner Santos (baixo, baixolão). A carioca pernambucana Cláudia Ferrari canta e toca violão, e também fez alguns dos arranjos, ao lado de Felipe Maia. Disco gravado, mixado e masterizado no Estúdio MidOut, em Olinda (PE), com capa de Valéria Pisauro e arte da designer Carla Almeida. Assim é “Escritos”, obra que já nasce definitiva. Da agonia ao êxtase, do pessoal ao coletivo. Um retrato em movimento: transparente, lúcido, belo.

 – Contatos: ferrari.claudiaf@gmail.com.

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