A MÚSICA ANCESTRAL DE ÍVANO NASCIMENTO

Por Eduardo Waack *

Tive a felicidade de assistir diversas apresentações musicais de Ívano Nascimento em Olinda (PE), nos anos de 1987/88. Pessoa extremamente engajada e culta, ele hipnotizava multidões na batida sincopada de reggaes, maracatus e demais ritmos afro-brasileiros. É com prazer que entrevistamos este ícone cultural pernambucano, que além de músico, é ator, tendo estreado com a peça Os Negros, de Jean Genet, na década de 1980, e participado, no Rio de Janeiro, da novela Xica da Silva (Manchete) e do seriado Malhação (Globo). Boa leitura!

Fale-nos um pouco sobre você. Como a música surgiu em sua vida?

Ívano — Eu comecei a tocar no final de 1979, após assistir a um show do Gilberto Gil e Jimi Cliff, aqui no Geraldão, no Recife. Me identifiquei com a estética dos músicos jamaicanos, os rastas, a concepção da música, a luta contra o racismo e pela igualdade social. Eu gostei muito. Era um tipo de combate, eles estavam cada um com uma farda; um do exército, outro da aeronáutica, o outro camuflado, outro da marinha… Eu gostei muito deste tipo de combate através da música. A partir daí, quando eu saí dali já montei uma banda. Montamos uma banda lá na Mostardinha, que é um bairro daqui, periférico, e até hoje estou nessa batalha.

Quais suas grandes influências e pessoas que admira?

Ívano — Minhas grandes influências foram Gilberto Gil, Luiz Melodia, Bob Marley e Paulo Diniz. Meus principais parceiros musicais são os compositores Ednaldo Lima e Valdi Afonjah.  Músicos que admiro: Rai Pessoa, Hernando Junior, Eric Gabinio, Marron Sasha, Jobeni, Rapha Groove, Carlinhos Lua, Francinha, Manoel e André de Olinda.

Quantos discos solo você lançou, e que estilos abrangem?

Ívano — Eu tenho três discos solo. “Rebeldia, Suor, Sorriso & Lágrimas”, “Cadela Suja” e “A Raça de Bronze”, porém desde que comecei eu tenho participações em diversos discos de festivais que aconteciam aqui, como o Frevança, da Globo, que eu estou em quatro edições, cantando maracatus de minha autoria, e estou num disco chamado Canta Nordeste, que era um festival da Globo que rolava aqui, reunindo só o Nordeste, e eu ganhei o primeiro lugar com uma música chamada Toque de Recolher.

Sua opinião sobre o panorama cultural e musical em Pernambuco.

Ívano — Você sabe que Pernambuco é um celeiro cultural muito grande. Tem mais artistas do que o próprio povo… O problema aqui, o grande problema que acontece no Recife é que não há produtores. São raros, raríssimos os produtores. Só encontramos tiradores de nota. O cara tira uma nota pra você, ganha 20% em cima, mas não corre atrás de shows para você, não paga estúdio, não transa um layout pra tu, nada. Ele só quer ganhar porque passou a nota. O grande problema do panorama cultural pernambucano é apenas isso: está faltando produtores. Com relação à cultura, é diversificada e está lá em cima!

Como as pessoas podem contatá-lo e apoiar ou adquirir o trabalho desenvolvido por você?

Ívano — Pode ser através do Facebook,  https://www.facebook.com/ivano.f.nascimento. Cria um contato comigo, fica meu amigo e a gente vê como é que faz, se eu envio o material pelo correio… Pode me contratar para apresentações por este Brasil… Isso é tranquilo, normal.

Quais seus planos para o futuro?

Ívano — Meu plano para o futuro é o seguinte. Como eu comecei no final de 1979, então eu tenho já quase quarenta anos de carreira. Eu penso muito agora em ficar mais suave desta correria toda, porque eu sempre fui eu mesmo, me autoproduzi, sempre corri atrás de tudo. Eu queria agora, se Papai do Céu me desse este conforto, era ter um terreninho, um sitiozinho pequeno, pra eu plantar, criar galinhas, que eu gosto muito, e ter o meu cachorro, minhas coisas. Tocar de vez em quando, selecionar mais as tocadas que eu quero ir. Aí saía do sítio, tocava e voltava. Queria um jipe velho desses, feito jipe do exército, pra eu vir à cidade de vez em quando… Axé!

“É Mentira”, de Ívano, que se apresentou no Palco Pop, na 19ª edição do Festival de Inverno de Garanhuns (PE).

Ívano em apresentação no Festival de Inverno de Garanhuns — FIG, 2009.


Ívano Nascimento interpreta “Sidnei” em Goiana (PE), 2012.

* Eduardo Waack é jornalista e escritor, autor de “Canções do Front” (1986) e “Daquilo Que Se Pode Dizer” (2017).