ERICKSON LUNA, POETA DAS MADRUGADAS

Por Eduardo Waack

“Faz da gravata / a forca / a fina veste / é tua mortalha / e teu birô / o teu esquife / Do gabinete ao túmulo / vade retro burocrata”. Conheci o autor do poema Epitáfio para um Burocrata, Erickson Luna, em Olinda (PE), no ano de 1987, e juntos tivemos a oportunidade de conviver por vários meses divulgando e declamando nossos poemas nas noites pernambucanas, quando nos encontrávamos, na antiga Feirinha, após descer do Alto da Sé, em busca de uma cachaça com mel.

Erickson possuía imensa cultura, traduzindo em seus versos os sentimentos que abundavam em seu puro coração. Alto, magro, barbudo e despojado, vestindo roupas simples; sorriso imenso e alma maior ainda, agradeço a ele toda a força & carinho que recebi naqueles idos heroicos dos anos 1980. Nascido em Recife (PE) no ano de 1958, ele residiu por muitos anos no bairro operário de Santo Amaro das Salinas. Formado em direito e jornalismo, optou pela poesia. Em 2004 publicou o livro “Do Moço e do Bêbado”, e no dia 22 de dezembro de 2006, durante a festa de comemoração do Natal dos Poetas Pernambucanos, lançou o poemário “Claros Desígnios” em parceria com o poeta Francisco Espinhara. Costumava dizer: “Quem tem que comandar nossa vida é nossa cabeça, o corpo que se vire para ir atrás”.

Faleceu em 2007, na cidade que tanto amou, percorreu e cantou. Como afirmou na ocasião Ednaldo Possas, “o poeta Erickson Luna nos deixou de luto nesta triste madrugada do Dia do Índio. Façamos uma pajelança em sua homenagem”. Descanse em paz, amigo, sua poesia jamais morrerá! A seguir, uma amostra de seu inspirado trabalho.

MARIPOSA

Pra eu poder

e só

andar nas ruas

fez-se em volta uma cidade

 

Para se dar

mais colorido à noite

pôs-se acima um luminoso

 

E pra que eu

me sinta bem enfim

nesta cidade

há-se em mim um cidadão

 

Portanto livre

como o que é em noite

e que enche as ruas

perseguindo luzes

acordando

ainda que em sonhos

íntegro

ainda que meio-homem

plenamente meio

mariposa

 

CLAROS DESÍGNIOS

Os vícios tragam-me depressa

à parte a rebeldia que me torna em jovem

 

Claros são os meus desígnios

é-me incontida a busca dos momentos

ao passo que me são estranhas

as vocações que emergem desses tempos

 

Diuturnos rituais à impotência

as existências curvam-se às idades

e se acrescenta à ancestral obediência

a iminência de também ser ancestral

 

A tal sorte a mim me cabe lamentar o pouco-a-pouco

 

a morte tarda dos longevos

sorrir da vida e a que ela se presta

tão mais intenso quanto perto o fim

 

Os vícios tragam-me depressa

à parte a rebeldia que me torna em jovem