CONSUELO DE PAULA E SUAS DELICADAS PAISAGENS SONORAS

Por Eduardo Waack 

Em suas composições, ela faz um mergulho nas tradições brasileiras, passeando por ritmos, lugares, pessoas e situações. Empreende um delicado trabalho de resgate da diversificada e rara alma nacional, e nos oferece o melhor de si. Nascida em 21/7/1962, Consuelo de Paula é vanguarda e é popular, autêntica sem ser elitista, transitando pelas diversas áreas da cultura libertária com voz afinada e reconhecido talento musical.

 Apresentação. Fale-nos um pouco sobre você.

Consuelo — Sou uma artista que se expressa através da canção e que está a serviço de uma obra, em busca de alguns momentos poéticos. Parece que são esses raros momentos poéticos que me fazem caminhar, que me impulsionam, me inquietam, arrumam e desarrumam meu pensamento, meu estado de espírito. Amo a vida através das surpresas vindas do simples e complexo fazer artístico, dessa coisa aparentemente tão sem importância e que ao mesmo tempo pode valer uma existência. Sou operária desse ofício tão pouco compreendido até mesmo por muitos de nós que o exercemos. Sou escrava de uma senhora exigente chamada arte e completamente apaixonada por ela. E acredito que a arte realmente chega a lugares onde mais nada consegue chegar. É o mais próximo do que um dia poderemos chamar de amor.

Como a música surgiu em sua vida?

Consuelo — Fui rainha da congada em minha pequena cidade natal, Pratápolis, Minas Gerais. Isso significava vestir-se com coroa e manto de cetim e seguir os cortejos de congadeiros e moçambiqueiros pelas ruas da cidade. Toquei flauta, escaleta, marca-passo e repinique na fanfarra do colégio. Fundei um bloco carnavalesco aos treze anos e dirigi a bateria do “Lá Vem Elas”, assim batizado pelo meu pai. Cantei em serenatas e teatrinhos da escola. Chorei quando tinha seis anos de idade porque queria aprender piano e não havia professor na cidade. Era louca por música, ficava sem dormir esperando por um momento de fanfarra, serenata, carnaval, congado. Inventava peças de teatro, canções e danças. Ouvia na vitrola da casa de minha avó os LPs de Vicente Celestino, Ataulfo Alves e ainda me lembro quando minha mãe trouxe para mim vários discos da Elis Regina e da Maria Bethânia que ela comprou na discoteca da cidade vizinha. Depois fui estudar em Ouro Preto e me senti como uma ave que vê crescer as asas, me senti inspirada, livre, aberta a novos horizontes. Cantei na Casa da Ópera de lá, cantei nas praças, nos becos, nos bares. Ouvi muita música mineira e música do mundo. Quando me formei vim para São Paulo como quem tem que seguir o curso do rio, como um bicho que segue seus instintos de sobrevivência, sem ter na consciência o significado da certeza que senti quando pisei aqui pela primeira vez, a certeza de que aqui eu deveria fazer morada, que neste lugar eu encontraria estradas, outras expressões, avenidas…

Quais suas grandes influências e pessoas que admira?

Consuelo — As minhas influências vêm todas das fontes inesgotáveis da música brasileira. Desde a música que os índios, os negros, os caboclos, os trabalhadores rurais, os mestres populares fazem, até a música erudita brasileira e do mundo. A música que grandes artistas urbanos fizeram, como Chiquinha Gonzaga, Villa Lobos, Noel Rosa e muitos outros dessa geração; Chico Buarque e outros da sua geração; as nossas grandes intérpretes, os sambistas, os chorões, os seresteiros. E continuo sempre sofrendo influência de tudo o que se faz de bom na arte brasileira e mundial. Adoro quando um músico jovem me surpreende, adoro descobrir novos sons.

Quantos discos solo você lançou, e que estilos abrangem?

Consuelo — Os discos “Samba, Seresta e Baião”, “Tambor e Flor”, “Dança das Rosas”, “Casa”, “Negra” (este também em DVD), “O Tempo e o Branco” e o livro “A Poesia dos Descuidos”. Eles fazem parte de uma única e interminável obra. Como um filme. Como uma exposição de quadros, como paisagens que vão tecendo um lugar. Como uma expressão que insiste em continuar, pois parece não ter ainda encontrado a palavra que satisfaça. Como um caminho tão pequenino frente à grandeza do universo, um grão de areia e ao mesmo tempo infinito em possibilidades novas a cada audição. Quando olhamos de longe, o estilo pode ser definido como sendo simplesmente música brasileira que namora com o samba sem poder ser classificada como tal, namora com o baião sem ser baião, namora com nossas toadas, canções, ritmos diversos, sem ser nenhum deles. Música brasileira feita por uma mineira que vive em São Paulo. Trago muito de Minas em minha música, os seus ritmos com diversidades de “respirações” em “seis por oito”. Busco o que a poesia consegue chegar numa letra de canção. E canto com minha divisão que vem da vivência com esses ritmos que citei, com polirritmias, com a toada, com universos ternários, e com o samba da minha região. Canto com uma divisão que tenta expressar a poesia. Canto com uma voz que buscou no silêncio a sua naturalidade, a sua verdade, a sua clareza. Deixo para outros classificarem, eu não consigo classificar a arte musical que faço. É Consuelo de Paula, para o bem e para o mal; para a amplitude que possa não ter e para o aprofundamento que possa ter; afinal, só posso cantar o que extremamente sinto, só posso compor o que a inspiração traz, só posso alcançar o que minha estética e antena de artista permite, e só permito o que para mim causa espanto e surpresa. 

Quais seus principais parceiros musicais, e músicos com quem tocou e gravou?

Consuelo — Cantei com Naná Vasconcellos em Buenos Aires. Cantei ao lado de Rolando Boldrin num show conduzido por Chico Pinheiro e Heródoto Barbeiro. Recentemente gravei com Toninho Ferragutti e Neymar Dias. Gravei com Dante Ozzetti, Zeca Assumpção, Sergio Reze, Heloisa Fernandes, Fábio Tagliaferri, Zezinho Pitoco, Ari Colares. Gravei um CD com a Orquestra A Base de Corda com arranjos de Chico Saraiva, Weber Lopes, Luiz Ribeiro, João Egashira, Luís Otávio Almeida e André Prodóssimo. Cantei ao lado do clarinete de Alexandre Ribeiro e da viola de Levi Ramiro. Gravei com Mario Gil, Teco Cardoso, Edmilson Capellupi, Gil Reyes, Jardel Caetano, Cássia Maria, Bré, Sylvio Mazzuca Jr., entre outros. Cantei com o Grupo Viola Quebrada.

Tenho composições realizadas em parceria com Rubens Nogueira, Vicente Barreto, Katya Teixeira, Socorro Lira, Dante Ozzetti, João Arruda, Guilherme Rondon, Luiz Felipe Gama, Luiz Salgado, Rafael Altério, Amauri Falabela, Felipe Azevedo, Elson Fernandes, Etel Frota, Osvaldo Rios, Gulin, Túlio Borges, Pedro Antonio e muitos outros queridos. Minhas canções já foram gravadas por Maria Bethânia, Alaíde Costa, Gonzaga Leal, Rita Gullo, Luzia Dvorek, Cris Lemos e Karine Telles, entre outros artistas que admiro.

Qual sua opinião sobre o panorama cultural e musical no Brasil atual?

Consuelo — Ao contrário do que a grande mídia tenta fazer parecer, no mundo real, na vida real, o panorama, por incrível que pareça, é cheio de belezas, de surpresas, de obras de arte sendo criadas e produzidas (mais criadas do que produzidas porque está cada vez mais difícil fazer um CD independente de música de arte, cada vez mais difícil viabilizar a produção — mesmo sabendo que as pessoas ouvem obras artísticas musicais o tempo todo, sabendo que o mundo não vive sem música, mas o mercado achou um jeito de que essas obras existam mesmo sem remunerar devidamente compositores, músicos, intérpretes, etc). Então, a arte continua forte; continuamos fazendo, criando, mas isso tudo como resultado da dedicação plena de muitos artistas, como resultado de uma luta que tem alto preço, mas que apaixonadamente os artistas continuam a realizar. Teimo em viver de música e assim será, pois a arte exige dedicação plena. No Brasil atual o panorama está bem complicado, vivemos tempos sombrios, vivemos tempos de retrocesso, mas reagimos com mais e mais canções, reagimos cantando, tocando, batucando, poetizando. Com mais força ainda.

O que pensa de uma América Latina mais unida e solidária?

Consuelo — É fundamental que isso se torne realidade, que tenhamos essa atitude, esse olhar, esse desejo e ação. Sempre senti isso de uma maneira muito forte. É um sentimento natural, é só abrir os braços e unir mantiqueira com cordilheiras, é só mergulhar e ver a água que corre nos mesmos rios. E para mim é só começar a cantar meus ritmos que a conversa é imediata. Essa união estava começando a crescer na América Latina, mas já está sofrendo ataques por causa de interesses político-econômicos para a manutenção de certos poderes. Seríamos muito fortes com essa aproximação, ela é essencial. E seria natural se não houvessem ataques a isso, se não houvesse uma grande mídia que cega e impede o que seria apenas o curso normal de um rio. Essa mídia serve a interesses estranhos ao campo da arte, da cultura, da política, sempre impedindo o soar das canções mais originais, mais provocadoras, mais ligadas a nós mesmos.

Um momento que ficou na memória.

Consuelo — Só um? São tantos momentos guardados na retina, no coração, na alma… Citarei apenas sete então! Quando comecei a cantar em São Paulo participei do projeto Arte nas Ruas e certa vez, cantando na Praça da Sé, um mendigo me falou palavras lindas sobre o que a minha voz havia provocado nele e me ofereceu uma garrafa de champanhe, deixou a garrafa ali, perto de mim e saiu. Era ocasião do Natal e ele deve ter ganhado alguma cesta e me deu o que certamente ele achou melhor. Eu não sabia o que dizer, o que fazer, foi muito lindo. Outro momento inesquecível foi no palco do Theatro Municipal de São Paulo quando ouvi o som da caixa da canção Folia /Fitas soando ali naquele espaço tão importante, lotado, e todos cantando comigo esse canto tão particular: …voam fitas amarelas… Outro momento bem guardado foi quando ouvi Maria Bethânia cantando a minha canção Sete Trovas (parceria com Rubens Nogueira e Etel Frota) em seu camarim, assim que entrei para cumprimentá-la.  Quando cantei no maior teatro da Argentina, o Gran Rex, fui aplaudida de pé durante vários minutos e ali, abraçada com meus músicos, senti uma energia linda, uma alegria incomum. Outro momento foi quando tive a sensação de voar no palco do Auditório Ibirapuera. Cantar ao lado de Rolando Boldrin e chorar de emoção junto com ele é inesquecível para mim.

Marcante foi gravar o programa Ensaio da TV Cultura, dirigido pelo saudoso Fernando Faro, programa do qual sempre fui fã e que fez parte de minha formação. E mil momentos que vivencio durante os shows, seja nos instantes de transcendência no palco, seja na hora dos abraços com o público. Guardo expressões de pessoas muito simples, que varrem os teatros, que são operadores de som, guardo expressões de poetas, de acadêmicos, de críticos, guardo a cumplicidade dos que trabalham junto, dos que me ajudam a fazer o que faço, guardo carinhos de fãs, guardo olhares.

Como as pessoas podem contatá-la e apoiar ou adquirir o seu trabalho?

Consuelo — Tenho um site com grande parte da minha história, vídeos, áudios, fotos, críticas, discografia, etc: www.consuelodepaula.com.br. Nesse site tem uma loja virtual com a minha obra: www.consuelodepaula.com.br/lojavirtual. A obra é distribuída pela Tratore e pode ser encontrada também nas boas lojas do ramo e nas lojas virtuais e digitais. As pessoas podem entrar em contato comigo através das redes sociais: https://www.facebook.com/paginaconsuelodepaula, https://twitter.com/consuelodepaula, https://www.instagram.com/consuelodepaula, https://www.youtube.com/user/consuelodepaula. E através do e-mail consuelodepaula@uol.com.br

Quais seus planos para o futuro?

Consuelo — Estou compondo um CD a partir de minhas melodias e letras, um CD que virá da minha relação atual com meu violão. Quero também realizar um projeto que é da intérprete. Faz tempo que não gravo um disco interpretando outros autores e tenho vontade de realizar isso. Canto em meus shows muitas coisas de outros autores também, entre as minhas canções, mas quero pensar numa obra inteira assim, mas isso tem que me surpreender. Estou preparando também um CD que surgiu de um mergulho profundo na natureza realizado com meu parceiro João Arruda. Quero escrever um livro com novas poesias.  Realizar shows pelo Brasil e pelo mundo. Continuar a caminhada com passos firmes, com a coragem de sempre e principalmente com o tamanho absurdo do amor que sinto por tudo e todos quando componho ou quando canto.

 

“O Meu Lugar”, música de Consuelo de Paula e Rubens Nogueira. Voz: Consuelo. Acordeom: Toninho Ferragutti. Viola: Neymar Dias.

“Espera”, Consuelo de Paula ao vivo em Curitiba (PR) no Theatro Paiol, junto à

orquestra “À Base de Cordas”, com regência de João Egashira e arranjo de Chico Saraiva.

“Retina”, composição de Consuelo de Paula e Rubens Nogueira. Consuelo apresenta-se no programa Senhor Brasil, da TV Cultura, com Rolando Boldrin.