ARTE AMERÍNDIA, ENTREVISTA COM ALICE HAIBARA

A proposta destas duas visionárias é valorizar a cultura indígena, dar visibilidade às suas lutas ancestrais e atuais, e fortalecer sua identidade diferenciada. Alice Haibara e Juju Maschietto são as criadoras do grupo Arte Ameríndia, e nos apresentam iniciativas reais e possíveis, para um relacionamento saudável entre os diversos grupos que compõe a sociedade brasileira, onde a “maioria” respeite e aprenda com as minorias.

Como surgiu a ideia de criar o grupo Arte Ameríndia?

Alice — Surgiu a partir da relação de parceria com as mulheres Huni Kuin da região do Acre. Iniciamos o projeto em 2013, eu sou antropóloga e na época realizava pesquisa de mestrado junto ao povo Huni Kuin do Rio Jordão.

Devido a uma demanda das artesãs indígenas, sobre alguns materiais vindos das cidades (especialmente miçangas de vidro) para a confecção de suas peças, iniciamos um processo de circulação e troca de materiais por artesanatos, comercialização das peças, compra nas comunidades e venda nas cidades. A partir de então expandimos a parceria com povos de outras regiões do Brasil e também América Latina. Unimos a proposta da comercialização das peças a partir de premissas do comércio justo, ao trabalho já realizado há alguns anos por nós na área de produção junto a projetos de fortalecimento cultural indígena, organizando eventos de intercâmbio de saberes dentro e fora das aldeias, de maneira a valorizar as artistas e artes ameríndias e apoiar a circulação não apenas das peças mas também das pessoas nos processos de trocas de conhecimento.

Qual é a proposta do grupo Arte Ameríndia?

Alice — Valorizar as artes e artistas indígenas a partir de práticas de comércio justo e sustentável e movimentos de intercâmbio de saberes. Contar as histórias e a riqueza cultural que existem em cada peça de arte ameríndia.

Breve histórico das atividades desenvolvidas até agora.

Alice — Desenvolvemos parcerias na circulação de artes ameríndias tecendo redes com povos indígenas de diferentes regiões: Huni Kuin (AC), Yawanawá (AC), Krahô (TO), Yawalapiti (Xingu, MT), Mehinako (Xingu, MT), Waura (Xingu, MT), Guarani Mbya (SP), Fulni-ô (PE/SP), Pataxó (BA), Emberá (Colombia), Ingá (Colômbia), Huichol (México e Guatemala), Shipibo (Peru), Aymara (Bolívia), Quechua (Equador), Wayu (Colômbia), além de ribeirinhos da região de Santarém, Pará. Realizamos oficinas artísticas com mestras indígenas do Xingu e do Acre, de tecelagem em miçanga, cerâmica, pintura corporal, em São Paulo. Além disso, existe o apoio e realização de diversas rodas de conversas, rodas de cantos e outras atividades relacionadas aos saberes de cura e plantas da floresta, pelas lideranças espirituais indígenas nas cidades.

Kamalu, imersão artística no alto Xingu.

Alice — O projeto Kamalu surgiu a partir da parceria com mulheres do Alto Xingu de uma família com importante atuação política e muitos conhecimentos.

Iamony Mehinako é liderança feminina em sua aldeia, reconhecida como importante pajé e mestra ceramista; suas filhas Anna Terra Yawalapiti e Watatakalu Yawalapiti são atuantes na política indigenista e artesãs primorosas na pintura corporal, artes em miçangas e tecelagem em esteiras. Iniciamos o projeto com oficinas que foram realizadas em São Paulo primeiro por Anna Terra e posteriormente por sua mãe Iamony. Uma bela imersão cerâmica foi realizada com duração de três dias em que as pessoas ficaram muito felizes em aprender um pouco sobre as técnicas cerâmicas com Iamony. Programamos então uma imersão artística na aldeia delas, para que as pessoas pudessem adentrar mais a fundo na convivência com outros modos de vida e de aprendizado, experienciando o cotidiano na aldeia e aprendendo técnicas artísticas indígenas.

 

Qual a situação atual dos povos indígenas brasileiros?

Alice — Bastante complexa e diversificada. Há diferentes realidades sendo vividas hoje pelos mais de 220 povos indígenas que habitam no Brasil. Podemos ressaltar que num quadro geral atualmente as políticas públicas estão bastante desfavoráveis aos povos indígenas tanto no que tange aos direitos territoriais, como aos processos de fortalecimento cultural.

Pessoas e organizações que destacam-se na defesa e empoderamento dos povos indígenas.

Alice — Há diferentes organizações indigenistas que atuam há décadas na defesa e empoderamento dos povos indígenas, como por exemplo o Instituto Socioambiental (ISA), IEPÉ, CTI — Centro de Trabalho Indigenista, Conselho Indígena Missionário — CIMI, Comissão Pró Índio do Acre, Comissão Pró-Índio de São Paulo, dentre outras no Brasil e também internacionais. É importante destacar que cada vez mais os povos indígenas estão se organizando politicamente na luta de seus direitos em associações locais e regionais como a COIAB no Amazonas, APOINME na região nordeste e parte do sudeste, dentre diversas outras.

Algumas ideias para um Brasil mais includente e socialmente justo.

Alice — Pensar em formas de conscientização política da população. Na área indígena pensar em ações de valorização dos povos indígenas a partir de trocas e intercâmbios que atuem na desconstrução de uma imagem exotizada e preconceituosa dos povos indígenas e fortaleçam seus modos de vida e de conhecimento, de maneira a compreender e conscientizar a população sobre processos de transformação de culturas e saberes que todos os povos vivenciam.

Como as pessoas podem contatar e colaborar com este trabalho?

Alice — Apoiando os projetos, participando das vivências, adquirindo produtos indígenas de forma consciente, fortalecendo e valorizando o trabalho das artesãs e artesãos.