O AMOR COMO ESSÊNCIA DA VIDA

Um comentário sobre o livro “Daquilo Que Se Pode Dizer”, de Eduardo Waack

Por Benedicto Luz e Silva*

Em “Daquilo Que Se Pode Dizer”, Eduardo Waack, em sua busca do amor ideal, como que recria uma trajetória da própria efemeridade da vida, que, no entanto, deseja eterna. “És mistério e és paixão / Loucura que desconhece limites  / e nos faz caminhar mais livres”. Poema a poema, o poeta aspira ao amor perfeito, no sentido mais lato, ainda que as incertezas de tudo o levem, ao fim, apenas a desencontros. Para ele, é como dizia Cecília Meireles: “Todo amor novo / nasce com um gosto / de saudade”. É como se cada experiência trouxesse em si o germe de sua própria destruição, como, por exemplo, no poema “As Lágrimas”: “É quando descem as lágrimas / No peito, feito cabelos / Que a tua saudade bate”.

Ao fim da leitura de todos os poemas do livro, a lição que se tira é a de que, mesmo após todos os amores frustrados, é preciso perseverar, porque, como dizia Aristóteles, o amor é o sentimento dos seres imperfeitos, e, se se deseja a perfeição, a nossa verdadeira missão é enfrentar as dificuldades presentes, na esperança de poder encontrar a plena harmonia. E Eduardo Waack desenvolve tudo não como ideias abstratas, mas numa continuidade cotidiana real, num autêntico caminho de descobertas, ao partilhar dos destinos alheios, ainda que por apenas alguns momentos. “Percebo que também buscas, / Apreensiva, um sinal para entregar-te, / Um sinal inexistente de segurança”. Isso porque o amor não surge quando se quer, mas apenas de conjunturas que nos ligam a causas profundas: “Te encontrar é tornar à vida, / Desemudecer. Enigmas inebriantes / E um jogo / De sorrisos. É buscar lá dentro d’alma / A porção carinhosa, / Que insistente se agarra / Nas entranhas do pulmão, asfixiante”.

Ainda que o amor ideal permaneça inacessível, a própria busca em si, ao fazê-lo refletir sobre os verdadeiros valores da vida, já vale como autoconhecimento. “Sua presença ensolarada / Esquenta a tarde fria / Guia meus passos / Luz de meu viver”. Embora, como dizia Vinícius de Morais, o amor seja eterno apenas enquanto dura, porque apenas carnal, sem espírito, pela felicidade e pelo prazer que proporciona, é “sinal de vida / Pulso clarão vertigem”. São muitas as passagens em que o prazer atinge o auge e logo se esgota, o poeta sendo verdadeiro “Pescador de Ilusões”: “O homem, desconfortável, quer sempre / eliminar o que o bicho deseja, / na lua jogada fora, sol na sarjeta / vento tempestade, pois a escuridão / é forte, e o medo mudo”. Uma dupla condição, pois, a terrestre, que vive, e a divina, que almeja. “Preciso exorcizar sua lembrança, / Para que, expulsa, eu volte a viver em paz. / Vontade de repartir-me / E experimentar caminhos / Que têm muito de imaginários”.

Revela-se assim o sentido existencial do poeta, na reconquista da unidade primordial perdida. É como se o poeta estivesse em busca de sua alma gêmea, e nunca a encontre. São muitas as situações em que se vê abandonado, porque, mesmo que os corpos se complementem, o mesmo não acontece com as almas. “Nesta sexta-feira da paixão / Os amores desfeitos / Logo pela manhã (…) Hoje Jesus morreu / e o nosso amor também. / Sonho abandonado / Corpo jogado (azul) / A razão ao avesso”. O problema é que o amor ideal é uma abstração: na imaginação, perfeito; na realidade, apenas frustração. Mas, para Waack, os poemas representam experiências vivas, e não se deve ignorar as conotações místicas que eles representam, e que o levam a transformar os anseios amplos de afeto que o impulsionam numa participação humana que ultrapassa em muito apenas as ações individuais: “Caminhos que nos levam / À imensidão dos planetas. / Medidas que preenchem um homem / Fazem dele condicionada realidade”, como está no poema final do livro.

* Ao completar 80 anos, Benedicto Luz e Silva firma-se como um dos maiores intelectuais de nossa pátria. Autor consagrado (“Um corpo na chuva”, romance, 1972 e “Vento Noturno”, poemas, 1986) e cronista exemplar, criou a Editora do Escritor em 1970.

– A fotografia do alto da página é de autoria de Rudolf Koppitz (03/01/1884 – 08/07/1936)