Una voz de las regiones



LAMPIÃO, O REI DO CANGAÇO

 

Por Eduardo Waack 

            Falar do Cangaço e de seu representante maior, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, é contar uma parte da própria história brasileira e em especial a de seu nordeste no últimos dois séculos. O clima de extrema penúria e desigualdade social; a fome e a exploração do sertanejo pelos grandes latifundiários da época, os “coronéis”; a falta de perspectivas e as humilhações cotidianas foram alguns dos fatores que levaram homens a se unirem e a sair pelo sertão a fazer duvidosa justiça com as próprias mãos. Praticantes de uma verdadeira guerra de guerrilhas, em nosso inconsciente coletivo figura até hoje a imagem de pessoas rudes e ao mesmo tempo românticas, cruéis e por vezes ternas. Os cangaceiros andavam em bandos de até 200 homens, atacavam e extorquiam cidades, inspiravam cantadores e trovadores populares, e a seu modo tornavam equilibrada a eterna luta de classes.

            Lampião, místico e rústico, justiceiro ou criminoso, não foi o primeiro cangaceiro. Antes dele vários bandos já atuavam, destacando-se José de Barros, o “Tigre do Sertão”, que liderou por 14 meses um grupo de salteadores, nos ídos de 1820. Cercado por forças policiais numa casa em Inhamuns (CE), sai em debandada segurando seu revólver, a espada e uma faca. Não acertou ninguém e tombou sem vida, atingido por um soldado. Em 1897, começava a agir Antonio Silvino (1875/1944), cuja captura mobilizou diversos estados do país e só aconteceu em 1914. Silvino, o “Rifle de Ouro”, teve filhos com mais de 40 mulheres e após capturado passou 23 anos na prisão. Em 1937, recebe o perdão do presidente Getulio Vargas e tranquilamente passa os últimos anos de sua vida, no Rio de Janeiro.

            Nascido em 7 de julho de 1897 na cidade pernambucana de Vila Bela, atual Serra Talhada, Virgulino Ferreira da Silva desde cedo destacou-se como pessoa destemida e conhecedora dos caminhos do sertão. Em 1917, é assassinado seu pai por policiais ligados a famílias rivais, e em seguida sua mãe morre de colapso cardíaco. Descontente com a justiça dos homens, ele resolve buscá-la por conta própria, e entra para o bando do temível Sinhô Pereira. Após um combate com as forças policiais mantenedoras da ordem, conhecidas como volantes, gabava-se do clarão que saia de sua arma durante a luta, “tal qual um lampião”, daí nasceu o famoso apelido. Chegar à liderança foi questão de tempo.

             Pedindo recursos aos ricos, e tomando à força dos desonestos, Lampião mantinha seu grupo, auxiliava a população por onde passava e buscava contatos com autoridades locais. Atemorizava cidades e povoados, e a controvérsia caminhava consigo. Era seguidor inconteste de outro mito nordestino, o Padre Cícero Romão Batista (Padim Ciço). Seus homens fortes eram: Corisco (o “Diabo Loiro”), Gato, Zé Baiano, Canário, Cajarana, Amoroso, Quinta-Feira, Juriti, Jacaré, Ponto Fino, Sereno, Antonio Ferreira e Sabino Gomes. Heróis errantes do sertão brasileiro, com a pele grossa curtida de sal, areia e sol, e a vista sempre atenta, poderiam bem ensinar galhardia e respeito a tantos “pacatos cidadãos” de nossos dias, que deixam-se conduzir como ovelhas em direção ao matadouro, cada vez mais pobres, doridos e vazios.

            Mas nem só por homens foi escrita esta saga. Em 1929 Lampião conhece Maria Gomes de Oliveira, que entrou para a história como Maria Bonita, mulher forte e de fibra, e extremamente bela. Juntos, deram cor a este relato, amaram-se, sonharam e tiveram uma filha, Expedita Ferreira. Além de Maria Bonita, havia no grupo Dinda, Sebastiana, Maria de Juriti, Adilia, Maria de Pancada, Verônica, Dadá (a “Musa do Cangaço”), Enedina de Cajazeiras, Sila, Neném, Inacinha e tantas outras mulheres que tornaram as noites quentes-misteriosas do sertão mais aprazíveis, aconchegaram seus pares e seguiram adiante, sem reclamar. Costuravam e bordavam, e os filhos nascidos no cangaço eram entregues a alguém para serem criados em paz, livres de perseguições, fome e sede.

            Em 1936, o sírio-libanês Benjamin Abrahão, que fora secretário particular do Padim Ciço, após o passamento deste sai à caatinga em busca de Lampião e de seu bando. Queria registrar em filmes os hábitos e costumes dessa brava e mítica gente, cuja fama já corria norte a sul do país. De presente para o Capitão Virgulino uma caixa de uisque White Horse, e para Maria Bonita, 15 frascos do perfume Fleur d’Amour, seu preferido. Conseguiu assim o mascate o único documentário sobre o “Rei do Cangaço”, e a partir daí surgiram as valiosas fotografias e filmagens que todos conhecemos, dos guerreiros em poses marciais, paramentados e elegantes, uma estranha elegância, cheirando a agreste, poeira e a bicho do mato.

            O cerco foi se fechando e mesmo quem tinha o corpo trancado sucumbiria vítima da traição. Em 1938, surpreendido numa fazenda em Angicos (SE), no dia 28 de julho, Lampião tenta reagir, mas morre lutando, vítima das balas de uma volante alagoana. Sua cabeça e as dos seus são cortadas, e imersas em latas de querosene com álcool e sal, para conservação. São exibidas nas cidades e vilarejos por onde passam. O espetáculo é grotesco. Esta era a prova de que o facínora estava morto. Sua lenda estava apenas começando, e hoje ainda nos escapa muito de sua integridade. Anéis, adereços-utensílios, chapéu-de-couro, punhais e cartucheiras, bornal e jabiraca, mais o inconfundível óculos de aro redondo. Os cães ao seu lado em árduas caminhadas Nordeste afora. 

            Encerramos este artigo com as palavras proferidas em março de 1926 por Virgulino Ferreira, em Juazeiro do Norte, numa entrevista ao jornal “O Ceará”: “Tenho cometido violências e depredações, vingando-me dos que me perseguem e em represália a inimigos. Costumo, porém, respeitar as famílias, por mais humildes que sejam, e quando sucede a algum de meu grupo desrespeitar uma mulher, castigo severamente. Até agora não desejei abandonar a vida das armas com a qual já me acostumei e sinto-me bem. Mesmo que assim não fosse, não poderia deixar essa vida, porque os inimigos não esquecem de mim. E por isso não posso e nem devo deixá-los tranquilos. Poderia me retirar para um lugar longinquo, mas julgo que seria uma covardia e não quero nunca passar por covarde.”