QUATRO LENDAS BRASILEIRAS

A noite estrelada lembra as riquezas de nossa terra ancestral, atiça os mistérios e liberta a imaginação. Crescemos ouvindo, contadas pelos mais velhos, estórias ao pé da cama, nos agrupamentos familiares na hora das refeições e em soturnos acampamentos de campanha, sertão afora; lembranças de eras perdidas e até então ignoradas. A literatura oral é transmitida de geração a geração, fazendo adormecer crianças traquinas, consolidando a identidade do pequeno curumim, testando a bravura do jovem guerreiro. Na roça, depois que o sol explode em mil tons avermelhados, no final do dia, é hora da boa conversa junto ao fogão e dos causos, das dúvidas materializadas no eterno desconhecido. No seio de uma América Latina formada por índios, negros, europeus, asiáticos e centenas de minorias cada qual mais complexa que a outra, está o Brasil, com sua história peculiar e vasto, diversificado território. Aqui, construímos, encontramos, transformamos e aprendemos várias maneiras de ser e de sobreviver, e neste caldeirão mágico desenvolveu-se uma resistência cultural que extrapola o limite imposto pela miséria e pela opressão oficial.
Em quatro breves exemplos atravessaremos o país relembrando que as novelas, presença dominante nos canais de televisão brasileiros, não são a única fonte de saber da população. Cinqüenta anos após a chegada dos barbudos espanhóis à América, Francisco d’Orellana, a mando de Pizarro, descia o Rio Amazonas, então denominado mar-dulce, em busca do mitológico Eldorado. Após vários meses de combates, fome, doenças e desânimo, Orellana narrou um encontro com as índias valentes, as amazonas, fortes e belas, ágeis e independentes. Vivendo uma sociedade só de mulheres, os homens eram aceitos apenas para procriação, caçados nas nações vizinhas. Hoje em dia existem várias hipóteses e pesquisas sobre o fato, mas a lenda pegou e deu origem até ao nome de um dos mais ricos estados brasileiros, além do maior rio do mundo, o nosso Amazonas.
Outro relato bastante interessante é conhecido como As Lágrimas de Potira, lenda que apresenta traços sincréticos e é possível que tenha sido divulgada pelos mamelucos no Centro-Oeste brasileiro. Fala do amor da índia Potira, menina bela como uma flor, e Itagibá, um jovem e valente guerreiro. Um dia, sua tribo foi invadida por vizinhos cobiçosos, e Itagibá teve que partir com os homens para a guerra. Não voltou, e o canto triste de uma araponga anunciou sua morte a Potira, que à beira de um igarapé chorou desesperadamente, tendo as lágrimas transformadas, por Tupã, em diamantes. Isso explicaria o motivo da cobiça dos bandeirantes paulistas, nos séculos XVII e XVIII, que arrasaram terra e gente (e muitos a si próprios) em busca de riquezas...

Em O Negrinho do Pastoreio, cuja triste ação se passa no Rio Grande do Sul, temos a estória de um esforçado menino filho de escravos, conhecido apenas por Negrinho. Após perder uma corrida de cavalos, em que seu patrão ganancioso havia apostado enormes fortunas, foi castigado duramente e por fim amarrado a um formigueiro. Na manhã seguinte, quando o foram enterrar, encontraram-no belo e altivo, rodeado de enormes cavalos, ocasião em que saiu pelos pampas a vagar, em disparada. Desde então, dizem que é visto todos os anos, a galopar, acompanhado de trinta cavalos, que passam formando nuvens de poeira dourada. E quando alguém procura alguma coisa e não acha, pede logo ao Negrinho, e depois, reconhecido, acende uma vela em agradecimento.

Já os lobisomens povoam as estórias do mundo inteiro, sobretudo em meio às populações rurais, sendo citados desde Heródoto, na antiguidade (lykanthropo: homem-lobo). É talvez a mais apavorante criatura saída da imaginação brasileira, juntamente com os Papa-Figos, as Mulas-Sem-Cabeça e as almas penadas. Que o diga o efêmero Chupa-Cabras... Alguns acreditam que seja um indivíduo amaldiçoado pelos pais ou pelos padrinhos, outros acham que é o sétimo filho de um casal. Geralmente, é um homem pálido e alto, que nas noites de sexta-feira vai a uma encruzilhada onde veste a roupa pelo avesso, dá sete nós em alguma parte dela e a seguir se transforma num ser metade homem, metade lobo. Necessita de sangue para sobreviver, corre apoiado nos joelhos e cotovelos, e aprecia sobremaneira o sangue de cachorro novo, carneiros, novilhos e crianças de peito, e na falta destes até adultos são atacados. Diz a sabedoria popular que se você cruzar com um lobisomem numa madrugada dessas, e quiser saber de quem se trata, não se apavore, ofereça sal ao monstro que no dia seguinte, em sua verdadeira forma humana, ele aparecerá em sua casa para buscar o prometido. Detalhe: as pessoas mordidas por estes seres transformam-se também em lobisomens.

Estes relatos infelizmente estão sendo esquecidos pela meninada e pelos mais velhos, trocados por programas enlatados comerciais e vazios de conteúdo, videogames caros e sofisticados, heróis turrões ultra-violentos e pelas drogas. O desemprego embrutecedor torna vil o cotidiano dos pobres, dos remendados, dos oprimidos e da classe média brasileira. Como pensar em literatura se falta até comida no armário da cozinha? Se a geladeira está vazia e nos querem torpes, capengas, dependentes do poder? Nas páginas dos melhores autores nacionais encontramos vivos e contagiantes os momentos mais inspirados de nosso passado, presente, e quiçá, futuro. Isto se os homens que controlam a guerra não nos destruírem em nome da paz.
Estas lendas, assim como muitas outras, fazem parte de nossas vidas, e transformam os acampamentos à beira da fogueira, as pescarias, iluminadas pela lua minguante refletida numa lagoa, ao lado da garrafa de cachaça-de-cabeça e do palheiro, e as noites dos adolescentes sem sono, em oníricas aventuras. Só o tempo nos diz que tudo é ilusão, porém aí já passou o nosso espanto e o susto soa como uma lembrança; lembrança de dias férteis, de homens rudes que são companheiros e ainda conversam, e contam histórias & estórias, de lugares e rios que formam esta nação (Amazonas, Velho Chico, Capibaribe, Piracicaba, Negro e Tietê, ai de mim...) e nos transportam, em suas águas profundas e barrentas, brasileiras, rumo à imensidão de nós mesmos.
EDUARDO WAACK
Escritor brasileiro, editor do jornal cultural O Boêmio. Publicou, pela Editora do Escritor, o livro de poemas Canções do Front (1986).


